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CRÔNICA DA SEMANA
DO MESMO AUTOR Entrevista concedida ao portal luso-brasileiro "Cá Estamos Nós". |
PEQUENO ÁLBUM
Viegas Fernandes da Costa
QUINTANA... “Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação”, ensinou Quintana. E hoje fez um céu de milagre. Todos os céus são de milagre. Quem sabe o eclipse... é, talvez o eclipse... E há este sorriso franco neste rosto triste. Como consegue este rosto triste sorrir tão francamente?
CHAPLIN Quando criança, lembro-me, houve aquele dia de chuva que me concedeu o filme de Chaplin. Na televisão, a magia do vagabundo que adota aquele garoto. Sim, Chaplin é mágico, foi mágico para mim, e que mal há nesta magia? Quero reaprender a chorar. Por favor, quero reaprender a chorar, e me encantar com o vento no rosto e libertar meu peito no sol.
REMINISCÊNCIA Meu avô tirando os dentes postiços e querendo morder-me com suas gengivas nuas. Minha avó obrigando-me a vestir aquele pulôver verde naquele dia de calor. O calor não estava no dia, mas no carinho da proteção; a nudez não estava nas gengivas, mas na inocência da infância.
MANHÃ EM BLUMENAU Sono e manhã. O guarda estende os braços, abriga passagem às capivaras que cruzam a faixa e a avenida. Lá... o rio, a água e meus olhos.
POEMA DE AMOR Quero meus poemas em ti, constituídos desta matéria marcada apenas na memória dos nossos corpos. Não os quero sobre frios papéis, nem muito menos canhestramente declamados nas praças e academias. Porque minha poesia é simples e única como um beijo, como um ato de amor. Que meus lábios declamem estes beijos, que minhas mãos componham sonetos na nudez do teu corpo. E que compartilhes comigo também esta tua poesia, porque assim afogaremos nosso medo, nossa culpa e nossa dor. Porque não há razão para sofrermos, não há razão para supliciarmos nossos corpos na negação dos nossos desejos. Isto é medieval, negar nossos desejos, interditar nossos corpos. Ah... não há culpa no belo. No belo mora apenas a arte, apenas a arte...
COMPONDO SILÊNCIOS Às vezes componho silêncios! É nestes silêncios que me encontro e onde podem me encontrar como realmente sou! Há poetas, como os japoneses, que buscam na expressão mínima o conteúdo máximo. Por isso o silêncio é o poema mais completo e profundo. Componho silêncios, como quem compõe versos! E falam meus olhos... há tanta coisa para se ver! Há tanta coisa...
SOLIDÃO Como uma frase de Flaubert em “Madame Bovary”, como aquela aranha que tecia sua teia em algum coração.
PERGUNTA Uma vela, uma praça, uma noite. Por quem queima a vela? Por quem vela a noite? Ah, e a praça onde dorme nossa cegueira! Quem está lá?
Blumenau, 30 de outubro de 2004.
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